Sábado, 30 de Maio de 2009
Chorar por procuração (ou a pedofilia moralista)

 

Para o livro, adaptei (reescrevi) uma velha crónica do blog da Atlântico. Esta crónica é sobre a relação entre os jornalista-do-directo e o caso Maddie. O que ali escrevi aplica-se ao novo caso do país-que-adora-fazer-pornografia-moralista-com-crianças. É uma espécie de pedofilia moralista. 

 

O caso Maddie revelou que os nossos telejornais já não estão interessados em fazer jornalismo. O negócio central das TVs, neste momento, é a telenovela. E a telenovela dos telejornais tem uma vantagem sobre a novela da Globo: utiliza personagens da vida real. Os jornalistas pegam em elementos do real (duas ou três pessoas) e recriam uma novela virtual à base de emoção e especulação.

Perante o desaparecimento da menina inglesa, os nossos jornalistas não mostraram um espírito jornalístico. A partir daquela pequena vila algarvia, os jornalistas emitiram emoção barata para todo o país. À hora do jantar, a par da dose de batatas e bacalhau, os portugueses receberam a dose diária de sentimentalismo. Não estou a dizer que as televisões deveriam ter ignorado o caso. Não é isso. Claro que este caso merecia espaço nos telejornais. Mas uma coisa é reportar um caso; outra coisa, bem diferente, é especular em cima da emoção do momento sem qualquer base empírica. Sem factos para relatar, os repórteres – ao longo dos infindáveis directos – apenas revelavam a sua emoção pessoal. Era como se os repórteres tivessem em sua posse uma procuração para sentir a emoção de todos os portugueses ali no local do infortúnio. Chorar por procuração, eis a missão auto-imposta das televisões portuguesas.

Este caso revelou, mais uma vez, um país com tendência para entrar em transes colectivos. Estes constantes transes virtuais permitem aos portugueses fugir dos seus problemas reais. Não por acaso, os jornalistas sugaram este caso de forma emotiva, mas nunca fizeram uma reportagem sobre o péssimo funcionamento institucional da PJ. Em Portugal, a emoção dá sempre cinco a zero à razão.

 



por Henrique Raposo às 18:45 | link | partilhar

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