Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Alegre a sério

Perante Manuel Alegre, é tentador estar desprevenido: o velho lírico, sempre pronto para “qualquer coisa de louco e heróico” (como anunciou no último Expresso), a eterna pedra no sapato do PS, a vítima dos abraços de Louçã -- quem melhor do que ele para garantir a Cavaco Silva um passeio de reeleição? Mas seria um erro menosprezá-lo. É preciso, mesmo contra alguma evidência, levar Manuel Alegre a sério. 

 

Alegre terá logo uma vantagem: não precisa de justificar um mandato, e ainda para mais um mandato numa época de frustração. As zangas passadas com Sócrates emprestaram-lhe uma cor de independente. Se for escolhido pelo PS e não der satisfações ao BE e ao PCP, chegará à campanha moralizado por uma primeira vitória sobre as máquinas partidárias. Mas tudo isto, sendo importante, não é o mais importante.

 

Na referida entrevista, Alegre não escondeu um dos alicerces das suas esperanças: “sou uma pessoa transversal”, “ganho votos ao centro e até à direita” -- “da última vez, até monárquicos!” Tudo isto é sabido e geralmente aceite. Alegre é mesmo transversal: leva, segundo deixa constar, a vida de um morgado culto, entre caça e literatura; exibe, por outro lado, o cadastro de um antifascista de 1960. É o que sairia de um cruzamento de Che Guevara com o príncipe de Salina. Vale a pena explorar as origens e as consequências desta miscigenação. 

 

A mistura que este patrício de esquerda pressupõe, entre a esquerda radical e a direita tradicionalista, nada tem de contra-natura. É mesmo a mais natural de todas, ao juntar todos aqueles que resistiram sempre contra a possibilidade de as massas acederem à prosperidade ou ao poder sem a intermediação dos seus superiores sociais (à direita) ou intelectuais (à esquerda). Têm um inimigo em comum: a modernidade, assente na democracia representativa e na economia de mercado. É esta comunhão na rejeição que explica o fascínio da esquerda de 1960 pela figura do aristocrata arruinado (veja-se o Barranco de Cegos de Alves Redol ou o Delfim de Cardoso Pires). 

 

No século XIX, houve a aliança formal de setembristas e miguelistas na Patuleia. Alegre, com alguma habilidade, pode arranjar outra Patuleia, combinando a direita social e a esquerda ideológica. O ambiente é propício. A crise actual revelou os limites e desequilíbrios da nossa modernização. Desde a década de 1960, formaram-se classes médias, mas dependentes do Estado e inseguras; e apareceu, mais recentemente, uma nova intelectualidade liberal, mas sem peso político. As velhas classes sociais (de direita) e intelectuais (de esquerda) ainda impõem em Portugal os figurinos de respeitabilidade: que espanto, se fidalgos caçadores e estudantes antifascistas, mesmo já só em espírito, encherem de ar as suas velhas superioridades para uma última campanha, “louca e heróica”, contra Cavaco Silva, o símbolo mais recente do Portugal “moderno”? 

 

A força de Alegre não virá da unificação das esquerdas, mas da conjugação dos reaccionários portugueses, de direita e de esquerda. Pode ser, se quiser e souber, o candidato da reacção. Nos tempos que correm, convém levá-lo a sério. 

 

Publicado no Expresso, 16 de Janeiro de 2010.

 


por Rui Ramos às 11:39 | link | partilhar

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Henrique Raposo
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