A família e os anos 80
pp. 15-17
Como sabem, está na moda a nostalgia pelos anos 80. E, aleluia, eu sou um fervoroso praticante desse culto, que elevou Vera Roquette à condição de suma sacerdotisa. Hoje em dia, as conversas dos trintões começam com uma reza no altar do Agora Escolha e acabam no campeonato dos desenhos animados dos 80: há os fanáticos do Era uma Vez no Espaço, os aficionados do Maravilhosas Cidades do Oiro, etc. Pois muito bem, esta nostalgia pelos 80 dá prazer, dá aquela gostosa pele de galinha, mas, com a vossa permissão, eu gostava de falar de outra coisa: não da nostalgia, mas da pedagogia dos anos 80.
Meus caros, aquele era um tempo difícil. No Natal, eu recebia um presente: um Playmobil, ou um Lego, ou um livro. Naquele tempo, não trocávamos apenas cromos, também trocávamos roupa. Lembro-me de uma camisola "de marca" que passou por várias camadas de primos (aquela bendita camisola azul comprada em 1983 sobreviveu à música dos Roxette e à queda da URSS). Depois, as famosas sapatilhas Sanjo tinham de durar, pelo menos, dois anos (as Sanjo só têm mística se forem velhas e remendadas). Bom, como podem ver, estes eram tempos difíceis, mas também eram tempos realistas. Em 1987, os portugueses não se comportavam como se tivessem um cartão de crédito holandês na carteira. E, acima de tudo, aquele era um tempo de trabalho. Eu fui educado numa premissa que cruzou a dureza alentejana com uma espécie de calvinismo tuga: "ou estudas ou vais trabalhar; ou estudas para entrares para a faculdade ou vais aprender um ofício". Meus caros, era assim a pedagogia dos 80: realismo e uma ética de trabalho que estava ligada a uma forte irmandade familiar. Tínhamos os pés no chão e trabalhávamos para subirmos na vida. Portugal - é bom relembrar - crescia a taxas asiáticas naquela época.
Mas, nos entretantos, o país perdeu esta garra que me educou. Os portugueses tornaram-se escravos dos direitos e do consumo, desligaram-se do trabalho e do espírito de sacrifício. Não por acaso, esta semana ficámos a saber que 300 mil jovens portugueses não estudam nem trabalham. E isto sucede num país onde metade das ofertas de trabalho fica sem resposta. Não me lixem, meus caros: estes dados revelam um país numa profunda crise moral. Aliás, esta silenciosa crise de valores é uma das causas da omnipresente crise económica. Se eu tivesse deixado a escola, meus caros, o meu pai teria sido o primeiro a desencantar um trabalho para mim. Porque não trabalhar era uma vergonha. Hoje, parece que ir trabalhar é que é a vergonha. Não trabalhar ascendeu ao estatuto de cool. Portanto, se não se importam, a par da nostalgia, vamos lá recuperar a pedagogia dos anos 80.