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Clube das Repúblicas Mortas

Clube das Repúblicas Mortas

12
Abr12

Quando a desonestidade marxista é uma comédia (em Portugal, o marxismo passa por "senso comum")

Henrique Raposo

1. A mortalidade aumenta. A culpa é do governo, que é mau, porque é de direita e a direita é má. O facto de existir uma gripe xpto no ar é um pormenor sem importância.

 

2. A Maternidade vai fechar. A culpa é da especulação imobiliária, que quer aquele espaço. O facto de existirem dezenas de prédios abandonados à volta da MAC (logo, à espera de comprador ou de "especulador") é outro pormenor sem importância.

11
Abr12

Ainda a Segurança Social (ou uma desculpa para escrever sobre Moscavide)

Henrique Raposo

Moscavide

Até 1990, Moscavide foi a minha Lisboa. “Ir a Lisboa” era, na verdade, ir a Moscavide. O médico era lá. As coisas que não se podiam comprar no Delgado e no Francês eram por lá compradas. Aquele bairro era o nosso bazar, a nossa Istambul. Um centro comercial, mas em bom. Quando mudámos de casa, perdi o rasto a Moscavide. Até ao domingo passado. Regressei para assistir à consagração como Pastor de um amigo. E confesso que este regresso foi uma montanha russa. À entrada, senti uma alegria nostálgica. À saída, fui atropelado por um medo difícil de explicar.

Para meu contentamento, a cerimónia foi realizada no velho Cine-Teatro, o sítio onde o meu pai via o 007, a toca onde o meu pai terá providenciado uns amassos bíblicos à minha desprevenida mãe (de certa maneira, fui concebido naquele Cine-Teatro). Na rua, senti-me em casa. Aquelas senhoras podiam ter sido minhas amas, minhas vizinhas. Reencontrei, enfim, um bairro com alma, imperfeito mas com carácter, e sem aquela polidez trendy do vizinho Parque das Nações. Problema disto tudo? Esta Moscavide só conhece uma velocidade: a câmara lenta. Parece que todos os velhotes do país foram ali deixados. No meu tempo, as filas do médico eram feitas por mães com garotos chorões. Hoje, as filas são formadas pela terceira-idade. Moscavide parece uma aldeia beirã cercada pelo bulício da ‘modernidade’ alcatroada. E não, não é um regresso ao passado. É um vislumbre do futuro. A crise demográfica está ali, ao vivo e a cores. Moscavide mostra como a pirâmide demográfica deu lugar a uma espécie de losango.

Eis, portanto, o tal arrepio de medo que senti entre bengalas, tosses várias e chapéus-à-avô: a nossa devastação demográfica – simbolizada por Moscavide – transformou o contrato entre gerações num puzzle moral irresolúvel para a minha pobre cabeça. Por um lado, sinto-me esmagado pela Segurança Social (SS), mas por outro lado sei que a qualidade de vida daquelas pessoas depende do contínuo aumento da minha contribuição. Não posso esconder que, por vezes, vejo aqueles velhotes como uma ameaça. Porquê? Porque se eu continuar a ser dizimado pela SS, ter muitos filhos não será uma opção. Mas, apesar disso, sinto uma relação umbilical com os tais velhotes. Isto não é fácil, e não se resolve com jogos de palavras. Aliás, este é mesmo o grande dilema moral que sinto enquanto português: ranjo os dentes quanto me tiram dinheiro que eu devia guardar para os meus filhos, mas, ao mesmo tempo, sinto um certo alívio por saber que esse dinheiro é fundamental para aqueles velhinhos, que podiam ser meus avós. Há quem resolva este dilema através do apelo à emigração. Mas isso não resolve o dilema, apenas o evita. Se emigrarmos, quem é que fica para pagar as reformas das Moscavides deste país?

 

A crónica do Expresso de 28 de Janeiro

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