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Clube das Repúblicas Mortas

Clube das Repúblicas Mortas

14
Mai11

O profeta de um Portugal secreto

Henrique Raposo

 

 

Daqui 

 

Nem que seja por breves instantes, esqueçam os consagrados e as esperanças do costume, e dêem atenção a J. Rentes de Carvalho, este transmontano que já conquistou a Holanda literária há muito tempo. A obra deste globetrotter de Trás-os-Montes merece um pequeno altar nas nossas letras, os livros deste cosmopolita-que-não-perdeu-o-lado-silvestre têm dimensão suficiente para cobrir a minha aposta: Rentes de Carvalho é um dos grandes escritores portugueses do nosso tempo.

Este novo romance, "La Coca", volta a evidenciar as duas grandes características da arte narrativa de Rentes, já demonstradas em "Ernestina" e "A Amante Holandesa". A primeira característica está relacionada com a natureza do narrador. Os romances de J. Rentes de Carvalho são sempre palco de um narrador às voltas com o passado, às voltas com os labirintos da memória. Não, não estamos perante os labirintos lúdicos de Borges. Aqui a memória bate mesmo no osso, onde dói. Donde o tom quase sempre autobiográfico da prosa rentista. A segunda característica está relacionada com a elaboração de grandes frescos sociais e históricos de Portugal. E, neste ponto, Rentes é insuperável nas nossas letras: os seus romances permitem ao leitor cheirar, sentir, ouvir e apalpar o Porto e Trás-os-Montes da primeira metade do século XX ("Ernestina"), e abrem a porta ao ambiente opressivo e violento desse Portugal profundo que só aparece nas páginas do Correio da Manhã ("A Amante Holandesa"). 

Em "La Coca", o narrador e personagem principal é um escritor português radicado na Holanda, que regressa às terras da sua juventude no Alto Minho. Enquanto se recorda do contrabandismo que marcava a vida daquela região nos tempos - supostamente - pachorrentos do salazarismo, este narrador/personagem tenta fazer um retrato do tráfico de droga da actualidade. Desta forma, Rentes traz para a grande literatura um mundo que a elite urbanóide não associa a Portugal: os assassínios, as lanchas voadores, a violência latente que, volta e meia, explode. Ou seja, Portugal de Rentes não é o Portugal dos brandos costumes, essa ficção salazarista que a democracia não conseguiu destruir.

Ao revelar este talento quase único para biografar os segredos inconfessáveis do Portugal supostamente brando, ao apontar o dedo para o abismo que existe entre a falsa brandura e a real bruteza dos portugueses, ao mostrar a tensão entre a beleza esmagadora daqueles montes mágicos e a violência que corre nas veias das gentes, J. Rentes de Carvalho reserva para si um lugar de destaque na nossa literatura. Rentes é o profeta de um Portugal que importa pôr a descoberto. Um Portugal belo e violento, um Portugal trágico.

12
Mai11

Do nojo

Henrique Raposo

Estão a fazer a Catroga aquilo que fizeram a Medina Carreira: "ai, é um velhinho maluco, não liguem às coisas que ele diz". 

12
Mai11

Pentelhos, sim senhor

Henrique Raposo

1. Sabem que mais? Gostei dos pentelhos, sim senhor. Porque é isso mesmo que se está a passar. Tal como em 2009, os média estão a fazer o jogo de Sócrates, ou seja, não estamos a discutir os problemas do país. Porra, nem sequer estamos a discutir o documento da troika que assinámos. Pior: toda esta semana foi feita em cima de uma mentira de Sócrates. Está no documento da troika (está em todo o lado, até na OCDE) que Portugal tem de baixar os impostos sobre o trabalho. Sócrates assinou esse documento, e depois mentiu ao país para atacar o PSD "ai, o PSD está a pôr em causa a SS", "ai, o PSD vai aumentar impostos?". E foi preciso Louçã para expor esta farsa. Durante vários dias, nenhum jornalista foi capaz de meter esta verdade à frente dos governantes. É triste, pá. 

 

2. No final disto tudo, os jornalistas portugueses deviam parar para pensar. Porque não estamos a fazer aquilo que o jornalismo deve fazer: limpar o espaço público, meter país a discutir factos e a realidade. Os nossos média, tal como em 2009, estão a contribuir para o ruído, para a não-discussão dos problemas. Ainda ontem, um montão de jornalistas "atacou" Passos com o spin de Sócrates: "então, como pode mexer assim na TSU?". Mas os jornalistas não leram o memorando da troika? É que estavam a fazer aquelas perguntas como se aquele documento não existisse. É patético. Será que vão para o terreno sem preparação e depois limitam-se a ser caixas de ressonância do spin de Sócrates e das redes sociais? Isto é patético. 

 

3. Depois da vergonha de 2009 (MFL a falar da realidade, e os média a desprezar a "velhinha", porque, ora, não passa bem na TV, nem vence debates, pá), eu pensava que isto ia mudar. Estava, como sempre, enganado. Mas o mistério continua na minha cabeça oca: por que razão os nossos média são tão permeáveis ao spin socrático? 

 

4. No dia 4 ou 6 de Junho, vários jornalistas e analistas vão aparecer na TV a dizer que "ah, não se discutiu o essencial". 

12
Mai11

Os pentelhos e as indignações selectivas

Henrique Raposo

Um país que se cala quando o seu PM abandona o parlamento é o mesmo país que se indigna com os "pentelhos". Faz sentido. É um país cobarde que se verga perante o poder, sobretudo se ele for de esquerda, e, depois, claro, aproveita estes momentinhos para mostrar indignação. Acho muito bem o barulho sobre os "pentelhos", uma figura pública não pode falar assim. Mas onde ficou o barulho quando o PM desrespeitou o parlamento? Onde? E onde fica o barulho quando o PM mente todos os santos dias ao país? Onde? Um país que se cala enquanto um ladrão de gravadores é candidato a deputado não tem direito a sentir indignação com os "pentelhos". Um país que se cala perante o "manso é a tua tia" não tem direito a sentir indignação com os "pentelhos". Não tem.  

Há dias, Sócrates apelodou de "selvagens" vários jornalistas brasileiros. Há imagens de TV que mostram isso. Onde é que ficou a indignação? 

 

 

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