Quando os jornalistas portugueses começarem a dar destaque a estas coisas, Portugal perceberá um pouco melhor os EUA. A União é um complexo sistema político e não um trono do Messias Negro ou do Sapo Texano.
Vital estava a pedi-las, Ferreira Fernandes
Europe's Eastern Crisis - The Reality Test, de Anand Menon, uma das vozes mais lúcidas sobre assuntos europeus.
Hoje em dia, só em autores ingleses podemos encontrar a verdadeira UE. A grande maioria dos autores e jornalistas fala da UE como se esta fosse um Estado. O debate em torno da UE é feito sempre em torno daquilo que a UE poderá ser no futuro (a tal entidade federal). Ou seja, o debate em torno da UE está sempre preso numa ideia (melhor, num desejo de alguns) e não em factos. E os factos são estes: a UE não é um actor político, não é um estado, não veio substituir os estados. A UE é uma plataforma comum para os estados europeus. A UE é feita pelos Estados, e não o inverso. A UE não veio destruir o interesse nacional. A UE é uma forma civilizada - a mais civilizada da história - para os estados filtrarem os seus interesses nacionais.
Infelizmente, só encontramos esta UE, a verdadeira, junto de autores britânicos.
Hoje, ficamos a saber que, para muita gente de extrema esquerda, estar sem emprego é algo que legitima dar porrada no candidato do governo.

1. O "Acontecimento" é um pequeno grande filme. Fez-me lembrar "A Pantera" do Jacques Tourneur, devido à forma como induz o medo. Nunca vemos a causa do medo; só vemos os efeitos do medo nas personagens. O vírus das árvores (não dos porcos) não tem rosto, naturalmente.
2. Eu adoro Shyamalan, porque este realizador adora recriar atmosferas religiosas. "Sinais" segue à risca a primeira regra de qualquer crente: não existem coincidências. Em "Sinais", Deus existe para dar ordem a todos os actos dos homens; no final de "Sinais", ficamos aliviados, porque, apesar do sofrimento, existe uma ordem arquitectada por um ser superior, uma ordem na qual nós encontramos um lugar seguro. E encontramos esse lugar seguro quando descobrimos que não existem coincidências.
Em "O Acontecimento", nada disso acontece. Aliás, "O Acontecimento" é o anti-"Sinais". Deus aparece aqui como um ser violento e vingador, que fustiga o mundo dos homens. O Deus de "Acontecimento" é um Deus que destrói a ordem construída em "Sinais". As personagens estão perante algo que não compreendem; sentem que estão a ser castigadas por uma força superior. E, no final do filme, não sentimos o conforto de "Sinais", mas sim um enorme desconforto apocalíptico. Mas, paradoxalmente (ou talvez não), este filme acaba por ser mais religioso: perante aquele acontecimento incompreensível, os homens só podem pensar o seguinte "perante isto, tem de haver um diabo e um deus". Sendo um pouco ímpio, diria que Shyamalan filma aqui o início da religiosidade, um início marcado pelo medo perante aquilo que não compreendemos.
3. Bom, é isso, ou Shyamalan quis apenas fazer a sua versão do Apocalipse prometido pela Greenpeace. Ou, então, só quis brincar com o espectador, fazendo medo. Na verdade, até gosto mais desta última explicação.
A melhor frase de um texto essencial:
Devido à crise mundial, a conversa sobre o proteccionismo tem sido uma constante. O proteccionismo, diz-se, é provocado pela pressão das populações; perante essa pressão, os governos não têm outra saída senão fazer proteccionismo económico.
Mas, se me permitem, o perigo maior não vem destas ânsias populares. O perigo maior advém das ânsias das elites políticas. E estas ânsias elitistas resultam da falta de humildade. Querem perceber e resolver uma crise cíclica - de alcance histórico - em apenas alguns meses. Há uma total falta de humildade para dizer: “tenhamos calma, esta crise é cíclica e vai demorar a passar, fazer y ou x não vai resolver nada”. Esta falta de humildade resulta ainda do maior tabu da política moderna: as nossas elites não aceitam que nem tudo está ao alcance do Estado. O Estado, na cabeça do político moderno, é um Deus com a capacidade para tudo resolver. O Estado, na terra, é como Deus no céu: tudo sabe, tudo controla, tudo resolve. Quando têm o Estado na mão, os políticos julgam que todos os problemas são pregos à espera do martelo (i.e., auxílio estatal). Sucede que a maior parte dos nossos problemas não são pregos.
Esta pressa em revolver a crise faz lembrar o explorador nas areias movediças: quanto mais se mexe, mais se afunda. O pior é que serão os filhos do explorador a pagar por estes erros.




