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Clube das Repúblicas Mortas

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24
Jun09

Manuela Ferreira Leite: muito realismo (o que é bom), mas ainda pouca política (o que é mau)

Henrique Raposo

I. Manuela Ferreira Leite está melhor do que José Sócrates. Além de uma nova confiança, bem presente no discurso, MFL tem – neste momento – uma vantagem sobre Sócrates: MFL fala da “realidade”, enquanto JS fala da sua “vontade”. JS diz que tem vontade de fazer obras públicas salvadoras. Mas nesse discurso o PM esquece um pormenor chatinho: a realidade. E, nesta entrevista, MFL puxou o país (e JS) para a dura realidade: o país está endividado até aos cabelos. Não há aqui ideologias. Há factos: a nossa dívida externa passou de 14% do PIB em 1999 para 100% do PIB em 2008. E sobre isto não há escapatória possível. JS não pode fingir que isto não existe, e MFL faz muito bem em relembrar este facto. Fazer o TGV e demais grandes obras implica reforçar o endividamento e, mais ainda, significa tornar o crédito num bem escasso e caro para a sociedade portuguesa.

II. MFL esteve ainda muito bem ao desmontar outro dos argumentos de JS. O PM  costuma dizer que resolveu o problema do défice “que herdou do governo PSD/CDS”. Ora, isto não é bem assim. O grande responsável pela miséria das nossas contas públicas tem um nome: António Guterres, o PM que fugiu das suas responsabilidades em 2002. O desequilíbrio das contas públicas começou aí. A deriva da dívida externa também começou aí. MLF fez bem em relembrar este facto. Tal como fez bem em relembrar o facto de o PS ter governado o país durante 11 dos últimos 14 anos. Se isto está como está, o grande culpado é o PS. Os números não mentem.

 

III. Outro ponto positivo: MFL disse que é possível governar com um governo minoritário. A democracia portuguesa tem de atingir a maioridade e perceber que governar não implica necessariamente a maioria absoluta. Essa coisa do "ou há maioria absoluta, ou há o circo" é, desculpem lá, um grande sinal de salazarismo. Foi com essa conversa que Salazar vendeu a sua fruta podre. Numa democracia madura, pode existir um governo minoritário. Governar é isso: negociar e não impor. 

IV. Mas – aqui é o ponto negativo - ainda não se percebe bem as diferenças políticas entre MFL e JS. Aliás, MFL diz que também gosta de investimento público, dizendo depois que não o pode fazer agora. Ou seja, a diferença entre PSD e PS é apenas uma questão de timing. Isto é poucochinho.

De resto, não se percebe quais são as diferenças entre PSD e PS ao nível da educação, saúde, código laboral, justiça, lei das rendas, etc., etc. Ou seja, tirando o apego à realidade, o PSD não me parece muito diferente do PS. Mais uma vez, a direita prepara o acesso ao poder sem uma política diferente do status quo socialista. O PSD vai entrar no poder não porque é bom, mas porque o PS é mau. E isto é poucochinho. O que vemos são apenas diferenças burocráticas entre PS e PSD. MFL não pode dizer apenas que “vai investir dinheiros públicos de forma diferente de JS”. MFL devia indicar outro caminho, um caminho diferente do PS. MFL devia tentar responder a esta questão: como é que nós podemos crescer sem a alavanca do Estado? O que podemos fazer para que a sociedade portuguesa produza sem ter o Estado como babysitter económico? 

Em suma, MFL tem muito realismo – o que é bom – mas ainda tem poucas políticas alternativas – o que é mau.
 

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