Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Obama, Huntington ou Niebuhr?

Em resposta a esta crónica sobre Obama, recebi um texto de Guilherme Marques Pedro, doutorando de Teoria Política em Aberystwyth. Aqui fica. Em breve, tentarei responder. 

Obama leitor de um teólogo cristão, Niebuhr? A esquerda europeia aguenta isso?

 

O artigo que Henrique Raposo publicou na última edição do Expresso sobre as semelhanças entre o pensamento de Samuel Huntington (1927-2008) e a acção política de Obama, associando-o a um certo tipo de conservadorismo no que à política externa diz respeito, tem desde logo o mérito de tentar enquadrar a política externa ainda verde de Obama num contexto teórico e académico.  Importa contudo notar que grande parte daquilo que diz ser o realismo da presente administração - que opõe certeiramente ao idealismo republicano do Presidente Bush - tem pouco que ver com o trabalho de Huntington pelas razões que a seguir exponho. 

Apesar de concordar com os pontos em comum que Henrique Raposo sublinha, a visão de Obama para o mundo decorre muito mais da sua leitura atenta de Reinhold Niebuhr (1892-1971), um dos teólogos fundadores to realismo cristão na década de 30. Apesar de ter gostado de ler o artigo, importa lembrar que aquilo que celebrizou Huntington não foi propriamente o seu realismo, mas sim a sua visão algo catastrófica do futuro dos conflitos internacionais e a forma como foi mediatizada. Quer o realismo clássico de Niebuhr e, com imensas nuances, o de Hans Morgenthau (1904-1980), quer o realismo estrutural de Kenneth Waltz - com quem tive o privilégio de falar pessoalmente em Setembro passado a este respeito - são pouco dados ao sensacionalismo presente nas teses de Huntington e têm aliás afinidades com o pensamento político continental europeu - uma certa teologia política, um certo existencialismo disfarçado, adaptado ao republicanismo dos pais fundadores - que não transparece nos textos de Huntington. Esse realismo cristão é muito mais sóbrio e representa, acima de tudo, uma crítica ao idealismo liberal e capitalista e à sua fé no direito e na técnica e também às utopias pseudo-científicas do Marxismo (que ficou conhecida como 'hermeneutics of suspicion'). Assim, o realismo mantém uma réstia de esperança e de crença no ser humano - aquilo que foi posteriormente designado 'hopeful scepticism'. De resto, o anti-essencialismo de Niebuhr muito inspirado por Nietzsche, representa de facto um recuo da ética para a esfera individual decorrente de uma antropologia pessimista que assume que os grupos se comportam imoralmente quando comparados com os indivíduos - porque se sujeitam a relações de poder e, enquanto estados, tendem a ser mais egoístas que os próprios indivíduos. 

Assim, Niebuhr rejeita quer um certo tipo de idealismo de tendências universalizantes - de que são exemplos maiores a teoria da guerra justa ou o ideal da 'Democratic Peace' que inspirou a Sociedade das Nações - quer um tipo de cinismo que poderia conduzir os americanos à inacção, ao alheamento e ao isolamento extremo. No fundo, os realistas argumentam que a política externa não poderia cair na tentação do conformismo - a que a política doméstica se habituou e que a sua cultura de consumismo reproduz - quando pela frente se encontravam ameaças  como Hitler e, mais tarde, a União Soviética. Mesmo o 'clash of civilizations' é incomparável a essas ameaças, pelo menos por agora, nos perigos concretos que apresenta. Daqui resulta uma astúcia política que Obama tem sem dúvida demonstrado e que se caracteriza por uma prudência, temperada por uma mensagem de esperança - que sinceramente julgo que não vai dar em nada de concreto, mas nunca podemos menosprezar o efeito psicológico deste líder. Esta prudência não é um 'ter cuidado com os outros' mas aplica-se sobretudo ao próprio exercício de poder americano - uma espécie de 'eu tenho de ter cuidado comigo mesmo', uma Inward Prudence que a administração Bush não demonstrou. 

Quanto ao Liberalismo - que pode ter muitas definições que não vou aqui desenvolver - todo o Realismo manifesta portanto enormes reservas. Sobretudo o de Obama precisamente porque Niebuhr era, no climax das suas posturas realistas e bíblico-proféticas, na sua capacidade em alertar para a omnipresença do pecado nas relações internacionais e ainda assim lutar por maior justiça social e económica internamente, um pós-marxista - mesmo que discordando, como teólogo e pastor, do secularismo presente na esquerda radical. Encontramos nele uma advocacia da Democracia pela negativa, sem apologias do que de positivo o liberalismo oferece, apenas suportada por uma fé imbatível naquilo que o liberalismo é capaz de combater fora dele - muito na linha de Santo Agostinho: o governo como mal menor, sempre valorizado por oposição a males maiores e como segurança contra eles. Nas primeiras páginas do The Children of Light and the Children of Darkness encontramos a descrição da defesa agostiniana da Democracia Liberal, posta nos seguintes termos: 

'A capacidade do Homem para a justiça torna possível a democracia; mas é a sua capacidade para a injustiça que torna a Democracia necessária'. 

Ainda assim, a descrição que oferece da presente administração parece-me acertada. Simplesmente, o que Huntington tem de bom não é original. E o que tem de original não é muito bom, ou de qualquer forma, não se aproxima muito desta administração. Sobretudo há em Obama uma certa ideia de respeito pelo inimigo - de acordo com a célebre citação bíblica, frequente em Niebuhr: 'Love your Enemy' - ainda que tal atitude não afecte, segundo a boa tradição do pragmatismo americano, um convicta e firme oposição contra o mesmo. Há sobretudo um sentimento de prudência e de defesa (e não exportação) da Democracia no respeito por alguma relatividade dos valores que resulta da assunção da sua incomensurabilidade - uma ideia, de resto, muito weberiana, e presente em todas as incarnações do realismo. Assim, sem fazer da Democracia um veículo da 'righteousness' própria do neo-conservadorismo, em que a democracia se absolutiza em Cruzada, Obama pode menorizar os efeitos do clash cultural e moral que a globalização anuncia - e cuja antecipação não é da autoria de Huntington - e assim reconstituir o ideal americano de democracia, oscilando entre a consciência de experiência política contingente e destino histórico último.



por Henrique Raposo às 23:10 | link | partilhar

Jojó na academia

Puto, a diferença entre a introdução e a conclusão é só uma: na conclusão, metes pontos de exclamação nas frases que tinham pontos de interrogação na introdução.



por Henrique Raposo às 14:55 | link | partilhar

Os ateus fanáticos fazem bom humor involuntário

Campos de Férias para jovens ateus! A sharia ateísta continua a fazer-nos rir.


Razão tem Michael Deacon quando diz isto: For if there's one thing to make my blood freeze, it's the thought of my child mutating into some kind of pedantic, humourless, eight-year-old mini-Dawkins.

 



por Henrique Raposo às 11:43 | link | partilhar

Assino por baixo

Portugal é um país dominado por uma elite que se conhece há longos anos, partilhando o mesmo percurso pós-revolucionário. Não é gente com caminhos muito diferentes - e todos parecem sentir que esse serviço que prestaram ao país é uma conta difícil de saldar. É como se fossem credores da liberdade que hoje se vive. E isso parece autorizá-los a ter dos negócios e do Estado esta visão tão promíscua. Isso explica silêncios e omissões - até esquecimentos, como aconteceu com Dias Loureiro - em relação a assuntos públicos. Não é que se protejam uns aos outros, mas é como se fizessem parte de uma congregação que acredita que, na ausência da sua avisada acção, poderia muito bem não ter existido país.


Martim Avillez Figueiredo



por Henrique Raposo às 11:09 | link | partilhar

Sines, o "TGV" que interessa

 

Crónica do Expresso: Ir Além do TGV: Sines


... O projecto do TGV tem uma lógica defensiva, típica do Portugal pequenino que tem medo de parecer periférico aos olhos da Dona Europa. No fundo, a defesa do TGV assenta neste argumento medroso: "Temos de levar Portugal até à Europa". Meus caros, já chega deste Portugal. Precisamos de pensar de forma ofensiva. Temos de fazer com que a Europa venha até nós, usando Sines para esse efeito. O porto de Sines pode ser a porta da Europa. Neste sentido, seria mais inteligente apostar num comboio de mercadorias de 'Velocidade Alta' (uma espécie de Alfa operário) que ligasse Sines a Madrid. Esta 'Velocidade Alta' de mercadorias seria mais útil do que a 'Alta Velocidade' de passageiros entre Lisboa e Madrid...



por Henrique Raposo às 09:48 | link | partilhar

Arcos

Arco governativo (PS, PSD, CDS) e arco guerreiro (PCP e BE).



por Henrique Raposo às 00:31 | link | partilhar

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Outra realidade

 

Logo no primeiro parágrafo, Cormac McCarthy remete-nos para uma outra realidade, com traços de pós-apocalipse. "Bosques", "trevas", fábula", e um "sonho" onde existe uma "criatura" (não é um bicho identificável, mas uma criatura com olhos "sem vida e cegos como ovos de aranha"). Com isto, McCarthy torna possível na nossa cabeça um mundo onde só existe cinza, e homem e uma criança nessa cinza. Mad Max trocou o cão por uma criança.



por Henrique Raposo às 21:59 | link | partilhar

Simples

Coisas que a escrita em português de Portugal parece não querer entender: chega-se à simplicidade; atinge-se a simplicidade. Ela, a simplicidade, não é um ponto de partida evidente e natural. Ela é o ponto de chegada, difícil pra caramba.



por Henrique Raposo às 21:52 | link | partilhar

O fim do momento neoconservador. Thank God!

In this context, President Obama has been right to tread cautiously -- for the most part -- to extend his moral support to Iranian protesters but not get politically involved.


Zakaria



por Henrique Raposo às 14:17 | link | partilhar

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
Jojó de férias

Puto, vou para o Atlântico bastardo, aquele Atlântico que vai pra cama com o Mediterrâneo. O Atlântico do sotavento algarvio.



por Henrique Raposo às 09:23 | link | partilhar

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
Os outros TGVs (II)

E a energia nuclear? Quando é que há um debate sério sobre isso? Pelo mundo inteiro, a energia nuclear está a ser encarada como uma alternativa verde e rentável para a produção de electricidade. Podem encher os montes portugueses - do Minho ao Algarve - com as ventoinhas da EDP. Mesmo assim, a pergunta permanece: essas ventoinhas valem mais do que um reactor nuclear? Se os portugueses não quiserem o nuclear, têm de estar conscientes do preço desse não: vão ter a luz mais cara. Porque as ventoinhas são bonitas, sim senhora, mas produzem energia cara.



por Henrique Raposo às 21:11 | link | partilhar

Jójó no cinema

- Estão a chover girinos no Japão. À falta de melhor, Deus agora anda a imitar o Paul Thomas Andersen.



por Henrique Raposo às 18:27 | link | partilhar

Os outros TGVs

Não podemos permitir que estas eleições legislativas se transformem num referendo ao TGV. É preciso colocar coisas realmente estratégicas no mapa. Por exemplo, o alargamento da nossa área exclusiva ao longo do Atlântico (que está neste momento, se não estou em erro, a ser discutida na ONU; resulta da exploração do fundo do mar, etc., etc.). Ora, temos meios para explorar e patrulhar tudo aquilo? Temos as atenções focadas nas tecnologias ligadas ao mar? Temos a marinha como prioridade de investimento nas forças armadas? 



por Henrique Raposo às 10:07 | link | partilhar

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Manuela Ferreira Leite: muito realismo (o que é bom), mas ainda pouca política (o que é mau)

I. Manuela Ferreira Leite está melhor do que José Sócrates. Além de uma nova confiança, bem presente no discurso, MFL tem – neste momento – uma vantagem sobre Sócrates: MFL fala da “realidade”, enquanto JS fala da sua “vontade”. JS diz que tem vontade de fazer obras públicas salvadoras. Mas nesse discurso o PM esquece um pormenor chatinho: a realidade. E, nesta entrevista, MFL puxou o país (e JS) para a dura realidade: o país está endividado até aos cabelos. Não há aqui ideologias. Há factos: a nossa dívida externa passou de 14% do PIB em 1999 para 100% do PIB em 2008. E sobre isto não há escapatória possível. JS não pode fingir que isto não existe, e MFL faz muito bem em relembrar este facto. Fazer o TGV e demais grandes obras implica reforçar o endividamento e, mais ainda, significa tornar o crédito num bem escasso e caro para a sociedade portuguesa.

II. MFL esteve ainda muito bem ao desmontar outro dos argumentos de JS. O PM  costuma dizer que resolveu o problema do défice “que herdou do governo PSD/CDS”. Ora, isto não é bem assim. O grande responsável pela miséria das nossas contas públicas tem um nome: António Guterres, o PM que fugiu das suas responsabilidades em 2002. O desequilíbrio das contas públicas começou aí. A deriva da dívida externa também começou aí. MLF fez bem em relembrar este facto. Tal como fez bem em relembrar o facto de o PS ter governado o país durante 11 dos últimos 14 anos. Se isto está como está, o grande culpado é o PS. Os números não mentem.

 

III. Outro ponto positivo: MFL disse que é possível governar com um governo minoritário. A democracia portuguesa tem de atingir a maioridade e perceber que governar não implica necessariamente a maioria absoluta. Essa coisa do "ou há maioria absoluta, ou há o circo" é, desculpem lá, um grande sinal de salazarismo. Foi com essa conversa que Salazar vendeu a sua fruta podre. Numa democracia madura, pode existir um governo minoritário. Governar é isso: negociar e não impor. 

IV. Mas – aqui é o ponto negativo - ainda não se percebe bem as diferenças políticas entre MFL e JS. Aliás, MFL diz que também gosta de investimento público, dizendo depois que não o pode fazer agora. Ou seja, a diferença entre PSD e PS é apenas uma questão de timing. Isto é poucochinho.

De resto, não se percebe quais são as diferenças entre PSD e PS ao nível da educação, saúde, código laboral, justiça, lei das rendas, etc., etc. Ou seja, tirando o apego à realidade, o PSD não me parece muito diferente do PS. Mais uma vez, a direita prepara o acesso ao poder sem uma política diferente do status quo socialista. O PSD vai entrar no poder não porque é bom, mas porque o PS é mau. E isto é poucochinho. O que vemos são apenas diferenças burocráticas entre PS e PSD. MFL não pode dizer apenas que “vai investir dinheiros públicos de forma diferente de JS”. MFL devia indicar outro caminho, um caminho diferente do PS. MFL devia tentar responder a esta questão: como é que nós podemos crescer sem a alavanca do Estado? O que podemos fazer para que a sociedade portuguesa produza sem ter o Estado como babysitter económico? 

Em suma, MFL tem muito realismo – o que é bom – mas ainda tem poucas políticas alternativas – o que é mau.
 



por Henrique Raposo às 22:18 | link | partilhar

E as mercadorias? E Sines?

O próximo PM deveria pensar assim. Ler, sff, Qual TGV, qual quê?, de João Carvalho, no Delito.

 

 



por Henrique Raposo às 18:58 | link | partilhar

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Henrique Raposo
Rui Ramos
Livros






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