Terça-feira, 31 de Março de 2009
Fetiche por secundários

 

 

Tenho um fetiche por secundários. Em conversas cinéfilas, gosto de esmagar a malta com a minha sapiência sobre actores secundários. Lembram-se de quem fez de "Sollozzo" no "Padrinho"? Ah, Ali Lettieri, que, no mesmo ano (1972), fez de bad guy no "Getaway". Dois bad guys lendários no mesmo mesmo ano é dose. Naturalmente, Lettieri nunca mais fez nada de jeito. Apanhou overdose de maldade. Quando fizer o meu primeiro filme, o dito será o primeiro a ter apenas actores secundários. Será a primeira obra-prima sem actor principal. Uma espécie de orquestra sem maestro e só com tambores. Violino é sobrestimado.
Um exemplo, mais um, da minha loucura secundária: eu sou, com toda a certeza, o único sujeito que é fã de William Fichtner. Quem é Fichtner, pergunta você? Ora, um elemento fundamental na história recente do cinema. Fichtner entrou no melhor e no pior filme dos anos 90, "Heat" e "Armageddon", respectivamente. Um tipo com esta amplitude térmica tem qualquer coisa.

 


 

 



por Henrique Raposo às 15:44 | link | partilhar

Ludwig regurgitado

"Wine of Aluqah", dos Therion (a # 3 do disco "Vovin")

 

 

 

 

Quem não sentir aqui a pulsão beethoviana não tem um neurónio nos tímpanos. Entendam, melhor, oiçam isto como um Ludwig escandinavo regurgitado para um mundo infectado pela popzinha. 

 



por Henrique Raposo às 15:28 | link | partilhar

A escadinha autoritária (ou cuidado com a pressa em resolver a crise)

A crónica do "Expresso":

 

1. (...) Ora, esta incapacidade para encaixar a incerteza em relação ao futuro foi sempre o primeiro degrau da escadaria autoritária. O fascismo e o comunismo não nasceram do coração de alguns homens maus. Isso é uma 'estória' de embalar sem correlação com a História. As forças autoritárias do século passado nasceram, isso sim, do coração de milhões de homens normais que não suportaram a angústia da escolha numa época de crise. Fascistas e comunistas prometeram a estes homens um futuro previsível que os libertava do fardo da escolha.

A ânsia que marca o ar do nosso tempo comprova - mais uma vez - que existirão sempre pessoas sem estômago para suportar a incerteza provocada pelo acto de escolher. A besta nasce desta revolta contra a angústia que acompanha o livre arbítrio.

 



por Henrique Raposo às 11:56 | link | partilhar

Segunda-feira, 30 de Março de 2009
A morte lenta de um regime

 

 

1. [...] A primeira morte é económica. O modelo socialista/social-democrata/democrata-cristão, centrado na caridade do Estado e na subalternização do indivíduo, está falido, e brinda-nos com recessões de quatro em quatro anos. Basta ler "O Dever da Verdade" (Dom Quixote), de Medina Carreira e Ricardo Costa, para percebermos que o nosso Estado é, na verdade, a nossa forca. Através das prestações sociais e das despesas com pessoal, o Estado consome aquilo que a sociedade produz. Estas despesas, alimentadas pela teatralidade dos 'direitos adquiridos', estão a afundar Portugal. Eu sei que esta verdade é um sapo ideológico que a maioria dos portugueses recusa engolir. Mas, mais cedo ou mais tarde, o país vai perceber que os 'direitos adquiridos' constituem um terço dos pregos do caixão da III República [...]

da crónica "O regime que morreu três vezes".

 

2. As pessoas não gostam de Medina Carreira. Mas, na verdade, as pessoas não gostam é da realidade. Ele só aponta para a realidade. Ele só aponta para factos que ninguém quer ver. E é fascinante ver o "denial" das pessoas perante os factos.

AJP Taylor dizia que as pessoas, quando criticavam Bismarck, o realista, estavam, na verdade, a criticar a realidade. 

 



por Henrique Raposo às 18:25 | link | partilhar

O "G" que manda: o G2 (China e EUA)

L'incapacité d'imaginer des institutions et des règles adaptées au capitalisme universel va accélérer l'émergence d'un duopole sino-américain : les Etats-Unis et la Chine, en étant seuls à mettre en oeuvre des plans de relance à la dimension de la crise (déficit de 1 752 milliards de dollars en 2009, soit 12 % du PIB pour l'administration Obama, mobilisation de 1 000 milliards d'euros en Chine), affichent leur ambition de coréguler l'économie du XXIe siècle. L'Europe, qui disposait d'une remarquable occasion de combler le terrain perdu face aux erreurs de l'Amérique, est en passe de confirmer son déclassement.

 

Nicolas Baverez



por Henrique Raposo às 16:55 | link | partilhar

"O Mundo não vai virar à esquerda"

[...] O "fim do neoliberalismo" é um chavão fácil, com fins ideológicos; não é uma explicação da realidade. Pretende-se utilizar o fracasso de um sistema financeiro mal regulado para atacar a economia de mercado. É bem mais difícil construir uma alternativa que garante a prosperidade económica e a justiça social da maioria dos cidadãos. A correcção e a reforma da economia de mercado são dois dos grandes desafios do início do século XXI. Outro é o modo como se lida com a globalização. Esta crise marca também o reforço do poder do mundo não-ocidental, especialmente da Ásia. Esta transformação global vai afectar, irremediavelmente, o modelo económico e social do capitalismo ocidental e europeu. Os partidos políticos, à esquerda e à direita, devem encontrar respostas para estas questões. Quem o fizer passará, nos próximos anos, mais tempo no governo. Até agora, ainda não vi algum sinal que indique que a esquerda está melhor preparada para o fazer [...]

 

João Marques de Almeida, Diário Económico



por Henrique Raposo às 15:15 | link | partilhar

Disco da semana

 

"Tristesse des Mânes", Collection D'Arnell-Andrea. Diz que é uma espécie de neo-clássico

 

 



por Henrique Raposo às 11:24 | link | partilhar

Domingo, 29 de Março de 2009
A Espanha é fixe

Portugal tem uma relação irracional com Espanha. Ou melhor, tem uma percepção irracional do vizinho castelhano. Temos a 8ª ou 9ª economia do mundo ao nosso lado, e estamos com complexos tontos? Os espanhóis entram muito em Portugal, dizem. E depois? Quem que dera que entrassem mais.


Um dos factores que explica o sucesso da Europa "rica" é este: ao longo dos séculos, aqueles países (Holanda, Bélgica, Alemanha, França, UK, Suécia, Boémia, etc.) puxaram uns pelos outros; o sucesso de um puxava pelo sucesso dos outros, numa espécie de contágio económico que acontecia à margem das rivalidades políticas. Nós, aqui na finisterra, nunca tivemos isso. A Espanha nunca puxou por nós, nem nós por Espanha. Hoje, o facto de a Espanha ser uma das maiores economias mundiais deveria ser um factor de alegria para os portugueses. Finalmente temos a nossa Holanda. De cada vez que fazemos "proteccionismo" contra a Espanha - seja ao nível do mercado de energia, seja ao nível do "não compro fruto espanhola" - estamos a contribuir para o nosso atraso. 



por Henrique Raposo às 21:12 | link | partilhar

Arvore dos Estapafúrdios

Toda a gente tem soluções estapafúrdias para o país. O BE quer sair da NATO. O PCP quer sair do mundo, à moda de Salazar. O pai do SNS quer impor um imposto, mais um, só para o SNS (o país tem de alimentar o sonho ideológico do senhor;  o país inteiro existe para sustentar o brinquedo do senhor).

Eu também quero brincar a este jogo. Para começar, acho que devemos vender Portugal aos EUA. Portugal passaria a ser assim o 51.º Estado da União; a nossa capital passaria a ser a Base das Lajes. Depois, poderíamos vender a Madeira aos refugiados palestinianos. Mais: consta que a Al-Qaeda quer recuperar o "Andalus". Pois muito bem: podemos fazer uns trocos vendendo o Alentejo e o Algarve a Bin Laden.
E, já agora, antes de vender isto tudo, poderíamos contratar os Taliban para remodelar Lisboa. Tal como destruíram aqueles budas gigantes, os Taliban poderiam destruir o Cristo-Rei, a coisa mais feia deste hemisfério.



por Henrique Raposo às 19:15 | link | partilhar

Sábado, 28 de Março de 2009
Islão, esse sítio porreiro para as mulheres

http://3.bp.blogspot.com/_bTzq4OE7Iso/SPaiw6GbfiI/AAAAAAAAARY/CtsAU28kJ-U/s320/desonrada.jpg

 

Em "Desonrada" (Livros do Brasil), a paquistanesa Mukhtar Mai conta a sua história sinistra. Na aldeia, começou a circular o seguinte boato: o irmão mais novo de Mai terá namoriscado, sem permissão, uma rapariga do clã superior. Em resposta, o tribunal da aldeia decretou que, para compensar o crime do irmão, Mai deveria ser violada pelos homens do clã superior. E assim foi.

Convém ter em atenção que esta misoginia bárbara não atinge apenas os cantos mais obscuros do Islão. Junto do chamado 'Islão moderado' também encontramos casos semelhantes. Em "Despedaçada" (Campo das Letras), a franco-marroquina Touria Tiouli descreve como foi presa por ter sido violada no Dubai. É isso mesmo, cara leitora: Tiouli foi violada por três gandulos, e as autoridades, em vez de perseguirem os violadores, acusaram Tiouli de "relações sexuais fora do casamento", um crime gravíssimo no moderníssimo Dubai. A vida das mulheres muçulmanas é, de facto, um "monte de sarilhos".

 

 

http://images.portoeditora.pt/getresourcesservlet/image?EBbDj3QnkSUjgBOkfaUbsI8xBp%2F033q5Xpv56y8baM5EOFvmnW9osP3bPpsuFSNC&width=150

 

 

Daqui



por Henrique Raposo às 18:13 | link | partilhar

De Sponville a Fonseca

https://www.bertrand.pt/fotos/produtos/9789896252205_1229690099.jpg

 

 

 

 

Em "O Capitalismo Será Moral?" (Editorial Inquérito), André Comte-Sponville diferenciou três ordens de pensamento: a ordem do possível, a ordem da legalidade e a ordem da moral. Usando esta grelha do filósofo francês, percebemos melhor o encanto seco de Rubem Fonseca. No livro de contos "Ela e Outras Mulheres" (Campo das Letras), este escritor brasileiro descreve os homens e as mulheres apenas no campo da possibilidade. Um homem pode ser torturado por dois homens? Sim, é possível. Então, Rubem Fonseca descreve este acto (e outros muito piores...) com uma frieza glaciar. Fonseca descreve actos horrendos, mas nunca adjectiva esses actos, ou seja, nunca entra na ordem moral e na ordem legal.

Os códigos legais e morais - os factores que distinguem o universo humano do universo animal - são aqui abolidos. É esta amoralidade não-humana que transforma Rubem Fonseca num autor fascinante. E reparem numa coisa: Fonseca está no campo da amoralidade e não da imoralidade. Fonseca assume-se como uma câmara que vai filmando o horror como se não soubesse o que é o horror. Fonseca é um extraterrestre que descreve actos humanos sem o conhecimento dos códigos que permitem julgar esses mesmos actos.

A escrita de Fonseca é um notável mundo sem adjectivos.

 

daqui

 

 

 

http://www.livrariaminho.pt/imgLivros/105376.jpg



por Henrique Raposo às 13:42 | link | partilhar

Sexta-feira, 27 de Março de 2009
Não é só birra

Direito ao assunto, Correio da Manhã 27 Março



por Rui Ramos às 21:18 | link | partilhar

Carga pronta metida nos contentores

 

1. Em primeiro lugar, devo dizer que fico mui feliz com este comité de boas vindas preparado pela Fernanda Câncio.
 
2. Em relação ao ponto. Se bem percebi, a Fernanda diz que há miúdos ciganos nas turmas normais. E então? O facto de existirem ciganos nas “turmas regulares” não retira uma vírgula de imoralidade ao facto de existir um contentor cheio de ciganos apenas. Mais: não retira um ponto e vírgula de imoralidade às declarações infelizes da responsável do Ministério ("discriminação positiva") - e este era o ponto de partida da crónica.
 
Mais: nessa “turma especial” – a do contentor – não estão outros miúdos. Estão apenas ciganos. Se fosse uma “turma especial” – com dificuldades de aprendizagem – também teríamos outras crianças não-ciganas nessa turma. Não, não estão ali “pessoas” com dificuldades em aprender; estão ali ciganos separados das outras crianças. Uma medida, aliás, que foi bem aceite pelos pais das crianças ciganas. 
 
3. O problema é este, e convinha ser realista sobre a coisa, sem complexos:  os ciganos só colocam os seus filhos na escola para recolherem prestações sociais. Convinha começar a discussão por aqui. Os ciganos não vêem na escola um sítio onde os seus filhos podem aprender coisas. A escola é um sítio que representa um rendimento mínimo garantido. Ponto. A escola não é um sítio onde a criança cigana vai aprender a fazer aquilo que sonha ser. Porque o pai não deixa. O futuro de uma menina cigana é determinado - à partida - pela vontade do seu pai. Isto, antigamente, tinha um nome: "sociedade machista e opressora". Agora não sei o nome que dão a isto. Será "direitos culturais"? 
 
4. Já agora, a ideia de “turmas especiais” sempre me pareceu um tiro no pé. Colocar todos os alunos com “dificuldades de aprendizagem” na mesma turma pode facilitar a vida aos professores, mas isso representa um péssimo ambiente para os próprios alunos. Ficam estigmatizados logo à partida. É a “turma dos burros e dos mal comportados”. Muita gente vê o seu futuro enterrado no momento em que entra nestas turmas. Na minha escola, tinham o nome de “turmas complicadas”. De forma absolutamente criticável, os professores colocavam todos os alunos complicados numa turma. Era como meter todas as maçãs podres num único cesto. Claro que nesta turma nunca se aprendia nada. Porque a própria formação daquela turma partia do pressuposto de que eles não conseguiam aprender. Aqueles alunos eram mesmo uma carga metida – à pressa – em “contentores”.


por Henrique Raposo às 17:26 | link | partilhar

"Que se lixe o PSD"

jazzamemuito15

 

Às 18h, na Rádio Europa, estarei à conversa com Francisco Proença de Carvalho, André Abrantes Amaral e Antonieta Lopes da Costa.

 

Temas de conversa:

 

- O Papa entre a carne e o espírito.

- A nossa crise, que não tem relação com a tal crise do tal "neoliberalismo".

- O provedor e a fraqueza institucional da III República.

- G20 e as burocracias europeias.

 

 

 



por Henrique Raposo às 16:49 | link | partilhar

Quinta-feira, 26 de Março de 2009
Um país fora do mundo

 

Pedro Aires Oliveira escreveu um belo livro de história diplomática: 'Os Despojos da Aliança' (Tinta-da-China). Com um sentido narrativo raro na historiografia portuguesa, o autor descreveu as relações luso-britânicas entre 1945 e 1975. Esta obra é um retrato de um país que gosta de estar fora da História. Na questão colonial (e não só), o Estado Novo estava literalmente fora do mundo. Era como se Portugal e as chamadas províncias ultramarinas constituíssem um arquipélago flutuante acima da realidade internacional. Salazar pensava mesmo que o fim da era do colonialismo não afectaria o projecto colonial português. Ao ler este livro, voltei a pensar numa das maiores contradições portuguesas: Portugal é um país com 900 anos de história, mas, paradoxalmente, os portugueses pensam de forma'ahistórica'.

 

 

 

 

 



por Henrique Raposo às 18:31 | link | partilhar

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